sábado, 29 de maio de 2010

Intrínseca

Ela
Somente ela
Minha companheira
Que bagunçou minha vida
E, por ela, tudo está virado
Capaz de me suscitar lágrimas
Quando se aproxima
Me mantém alerta
Nas infinitas noites
Nos meus sonhos de verão
Me cobre com seus braços...
Longos braços, firmes braços
Com ela... não sinto fome
Ela me sacia
Sua ausência é consciência
Seu contorno é meu "em torno"
Ela... Está em mim
Sinto-a nas veias, na pele, nos pulmões
Ah! Como já me tirou o ar
Quando ela olhou meu coração
Inflou-o consigo e
Tornou-o adorno de seus dedos
Não a escolhi para mim
Ela me escolheu
Ela se fez para mim

Ela
A grande
A forte
A plena
...
A dor

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Lamúria de Hero

A tua ausência me sufoca e me reprime
Me dirige ao infinito
Ao buraco alvo e vasto
Que cega, desorienta e penetra
nos pulmões inflados e soluçantes
Que suplantam lágrimas secas...
sinto o sal rasgar minha pele
(e os soluços afloram)
O ar se esvai, a concentração evapora
Mas onde estão as lágrimas?
No interior de teus olhos frios e indiferentes
No abraço que não quer dar
Nas palavras cortantes e distantes
Na pele
Que me repele...
Sua distância invisível rejeita minhas palavras
De forma que estas não tenham força nem de serem ditas
e agitam-se na minha garganta querendo sair
Me estremecem e me massacram...
Sorrateiras e ardentes
Escapam pelos olhos... Tão silenciosas quanto a luz diáfana
E que instintivamente voltam a mim,
Como facas serradas... Que ferem, que marcam
Simplesmente por não terem sido ditas

Queria ser forte para não chorar
Para ainda permanecer sã
Mas ainda cresce em mim a esperança nula
A vontade crua
De ao menos ter um dia calorosos os olhos que
Hoje me apartam da ternura que no passado já me olharam

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O contrário do Amor

Queridos!

Recebi esse texto de uma amiga e pensei ser interessante compartilhar com vocês!
Marta Medeiros, você é um gênio!

O contrário do Amor

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

(Martha Medeiros)

Essência

A música se perde no outro cômodo
As roupas não se mantêm... Deformam no piso azul
Várias faces e o mesmo eu, repetidas no vidro suado
Ali, só você, só eu, mas separados. Não existe ritual em conjunto
Ainda ouço a batida forte da música, mas não reconheço sua letra
Separo meus instrumentos e sinto a água.
...
Não há nada a se pensar, apenas eu
Frio, hora, compromissos, beleza
Já não importam ali
Santuário perfeito de entrega ao eu que desperta
Com águas nos ombros e olhos no céu, sentimentos afloram
Tristeza, desejo, dor, indiferença
Tudo numa ciranda interminável que passa por meus olhos
Com água nos ombros
Fujo do eu que existe em carne e osso
Para encontrar a fenda que coexiste de lembranças e poesias
O morno abraço jogado em mim
Abre caminho para o torpor
Não vejo mais, não falo mais
Nem penso mais
Aliás, só me lembro de mim depois...
Depois da fuga, de despertar, da louca vontade
De me fazer parte da líquida paz insípida
Que se esvai nas grades metálicas e sujas do chão

Me renovo
Me refaço
Me monto em pedaços
Me lembro e existo de novo
Sem lembranças doloridas ou felizes
Sem alegria ou tristeza
Apenas satisfação de ainda acordar e ainda existir
E ainda sentir a leveza sinuosa do vapor que se esvai.

Olhar do Vagão

Olá Queridos leitores!

Sei que já faz um tempo que eu não escrevo nada, mas vocês não se livraram de mim.

Um novo poema. Um poema novo. Um desses aí!

Quando ainda madrugada
Eu sonhava
Pensava no breu amanhecido e tácito
Eu me perdia
Nas constelações de faces engessadas
Eu fugia
No calor do outono transformado
Eu adormecia
Na vida nascida da rotina urbana
Eu não mais existia